Thursday, October 1, 2026

20 - B.B. King - " The Thrill is Gone"

 

20 - B.B. KING — O REI DO BLUES

Lucille em primeiro plano, voz de pregador, vibrato inconfundível e a elegância que levou o blues elétrico do Mississippi ao mundo.


Olá, eu sou Fabiano Holanda Cavalcante. Não sou produtor musical de verdade, estou apenas fingindo ser um neste projeto. O objetivo é criar uma coleção fantástica, reunindo o puro mel de ouro de cada artista. Organizo tudo como um LP simples com 14 faixas (7 no Lado A e 7 no Lado B). A ideia é entregar o melhor do melhor para abrir a porta para quem quiser mergulhar na obra completa.

O CONCEITO

Uma viagem pela obra de B.B. King, o cantor e guitarrista que transformou poucas notas em uma linguagem inteira. O Lado A parte dos standards que ele tomou para si, atravessa a afirmação autoral dos anos 1960 e chega ao triunfo orquestral de “The Thrill Is Gone”. O Lado B expande esse reinado por meio do soul, das parcerias, da estrada, da autobiografia e da compaixão social. Em todas as fases, a voz humana e a guitarra Lucille conversam como personagens de um mesmo drama.

LADO A — LUCILLE, AUTORIDADE E O BLUES QUE CONQUISTOU O MUNDO

1. Every Day I Have the Blues

Compositor creditado: Peter Chatman (Memphis Slim)

Gravada por King em 1955 e transformada depois em assinatura de palco, esta canção resume a elegância de seu blues. Metais, balanço e uma voz sem autopiedade sustentam o lamento, enquanto a guitarra responde às frases como segunda cantora. Nas apresentações ao vivo, tornou-se saudação, cartão de visitas e pacto imediato com a plateia.

2. Sweet Little Angel

Compositor creditado: B.B. King

Lançada em 1956 a partir da tradição de “Black Angel Blues”, tornou-se um dos primeiros grandes emblemas de King. Sua guitarra dobra notas com doçura e tensão, aproximando-se da voz humana, enquanto o arranjo de metais amplia o desejo. A interpretação ao vivo no Regal consolidaria a música como espetáculo de intimidade coletiva.

3. Rock Me Baby

Compositores creditados: B.B. King e Joe Josea

Lançada em 1964, adapta uma antiga linhagem do blues a um riff grave e hipnótico. King deixa espaço entre as notas, faz a guitarra gemer e conduz o pedido amoroso com autoridade tranquila. A gravação atravessou o público do blues e entrou no repertório do rock, tornando-se uma de suas canções mais regravadas.

4. Paying the Cost to Be the Boss

Compositor: B.B. King

Lançada em 1968, é uma declaração de autonomia com humor, orgulho e balanço. King enumera o preço de sustentar a própria vida e rejeita cobranças externas, apoiado por metais secos e guitarra econômica. O blues deixa de ser apenas lamento e vira afirmação adulta de responsabilidade e independência.

5. The Thrill Is Gone

Compositores: Roy Hawkins e Rick Darnell

Gravada em 1969 e lançada no álbum Completely Well, levou B.B. King a uma nova dimensão popular. As cordas criam um inverno emocional, o baixo mantém a marcha e Lucille corta o arranjo com frases breves. King canta o fim do amor não como súplica, mas como libertação dolorosa e definitiva.

6. Hummingbird

Compositor: Leon Russell

Incluída em Indianola Mississippi Seeds, de 1970, aproxima King do gospel, do rock e do soul de estúdio. Piano, coro e dinâmica crescente cercam uma figura amorosa tão inquieta quanto um beija-flor. A guitarra aparece com precisão, sem dominar a arquitetura coletiva do arranjo.

7. Chains and Things

Compositores: B.B. King e Dave Clark

Também lançada em 1970, transforma peso emocional em atmosfera noturna. King canta sobre correntes visíveis e invisíveis, enquanto piano, cordas e guitarra avançam com solenidade. O Lado A termina num blues moderno, cinematográfico e profundo, em que cada silêncio parece carregar uma história.


Depois de um Lado A que acompanha a transformação do mestre do circuito de R&B em voz universal, o Lado B amplia o mapa: soul sofisticado, encontros entre gerações, estradas antigas, autobiografia, orgulho do ofício e a compaixão de quem nunca separou o blues da vida comum.

LADO B — ESTRADA, MEMÓRIA E O REINADO SEM FRONTEIRAS

1. To Know You Is to Love You

Compositores: Stevie Wonder e Syreeta Wright

Lançada em 1973 com a participação de Stevie Wonder, aproxima o blues de King da textura exuberante do soul. Teclados, metais e seção rítmica constroem uma longa declaração de amor, mas Lucille preserva a identidade do intérprete. É encontro de gerações sem perda de autoridade.

2. Riding with the King

Compositores: John Hiatt e Nick Lowe

Faixa-título do álbum de 2000 com Eric Clapton, celebra a viagem ao lado de uma lenda sem transformar o homenageado em peça de museu. Os dois guitarristas trocam frases e sorrisos musicais sobre um groove descontraído, combinando a elegância incisiva de Lucille com o fraseado de Clapton. As vozes também se alternam com naturalidade, reforçando o clima de encontro entre gerações. King permanece no centro, conduzindo a carona com voz calorosa, humor e presença soberana.


 

3. Key to the Highway

Compositores creditados: Charlie Segar e Big Bill Broonzy

Neste standard de estrada, registrado por King e Clapton em Riding with the King, a partida é tratada como destino inevitável. Vozes e guitarras dialogam sem disputa, respeitando a simplicidade da forma. A velha rodovia do blues reaparece como elo entre tradição, amizade e continuidade.

4. Blues Man

Compositor: B.B. King

King apresenta o ofício sem romantização: estrada, cansaço, aplauso, solidão e necessidade de continuar. A interpretação tem a força de uma profissão de fé, sustentada por Lucille e por uma voz que conhece o preço de cada verso. O título simples contém uma vida inteira de trabalho.

5. Lucille

Compositor: B.B. King

Lançada em 1968, é canção, relato e apresentação formal da guitarra que acompanhou King por décadas. Sobre um blues lento, ele conta a origem do nome Lucille e explica o instrumento como sustento, consolo e voz. Poucas faixas revelam com tanta clareza a relação entre músico, ferramenta e identidade.

6. Ghetto Woman

Compositores: B.B. King e Dave Clark

Incluída em In London, de 1971, observa dignidade, desejo e sobrevivência dentro de uma realidade urbana dura. O arranjo ganha escala de soul e rock, mas a interpretação evita distância moral. King canta com empatia e deixa a guitarra comentar aquilo que a narrativa não explica.

7. Help the Poor

Compositor: Charles Singleton

Lançada em 1964, fecha o LP como pedido de socorro amoroso e humano. O ritmo latino, os metais e as respostas de guitarra dão movimento à vulnerabilidade. King não implora de joelhos: transforma necessidade em comunicação direta, encerrando a seleção com balanço, compaixão e elegância.

Depois da escuta, o retrato: a história de um menino do Delta que fez uma guitarra cantar, converteu a estrada em escola e levou o blues a públicos do mundo inteiro sem abandonar a verdade de uma única nota.

PERFIL DO ARTISTA — B.B. KING

Mississippi, igreja, algodão e as primeiras cordas

Riley B. King nasceu em 16 de setembro de 1925, perto de Itta Bena, Mississippi, e cresceu entre plantações, trabalho rural e música religiosa. Cantou em coro gospel, aprendeu os primeiros acordes com um pastor e absorveu a combinação de intensidade espiritual, narrativa cotidiana e resposta coletiva que mais tarde marcaria seu blues.

Ainda jovem, trabalhou numa descaroçadora de algodão em Indianola e tocou onde podia. As gravações de Blind Lemon Jefferson, Lonnie Johnson, T-Bone Walker e outros mestres ofereceram modelos, mas King buscaria uma voz própria: notas sustentadas, curvas precisas, vibrato intenso e pausas que faziam a guitarra respirar.

Memphis, rádio e o nascimento de B.B.

Em 1947, King seguiu para Memphis, onde conviveu com o primo Bukka White e encontrou uma comunidade musical decisiva. Apresentações no rádio abriram caminho para um programa na WDIA. O apelido “Beale Street Blues Boy” foi encurtado para “Blues Boy” e, finalmente, B.B. King.

No início dos anos 1950, sucessos como “Three O’Clock Blues” consolidaram seu nome nas paradas de rhythm and blues. King montou uma banda disciplinada, adotou arranjos com metais e transformou o circuito de clubes em laboratório. Em 1956, chegou a cumprir centenas de apresentações, construindo uma relação direta e incansável com o público.

Lucille e uma nova gramática para a guitarra

O nome Lucille nasceu, segundo a história contada por King, depois de um incêndio num salão em Arkansas. Ao descobrir que a briga que derrubara um aquecedor começara por causa de uma mulher chamada Lucille, decidiu batizar assim suas guitarras como lembrança de nunca mais arriscar a vida daquela maneira.

Mais importante que o instrumento específico era a fala criada com ele. King não buscava acordes cheios nem velocidade constante: fazia a guitarra responder à voz com bends, vibrato e frases curtas. Essa economia expressiva influenciou gerações de músicos do blues e do rock, entre eles Eric Clapton, Buddy Guy e incontáveis guitarristas posteriores.

Do Regal ao grande público

Live at the Regal, gravado em Chicago em 1964, registrou a comunicação de King com uma plateia em estado de combustão. Canções, falas e gritos do público formam um único fluxo. O álbum tornou-se referência porque revela não apenas um guitarrista, mas um mestre de cerimônias capaz de controlar tensão, silêncio e catarse.

No fim da década, o reconhecimento de músicos de rock e a gravação de “The Thrill Is Gone” ampliaram enormemente seu alcance. King passou a tocar em grandes teatros, festivais e circuitos internacionais. Sem abandonar o blues, incorporou cordas, soul, jazz e produção contemporânea à sua linguagem.

Colaborações, honrarias e permanência

Ao longo das décadas seguintes, B.B. King tornou-se embaixador mundial do blues. Gravou com artistas de diferentes gerações, excursionou intensamente e manteve o palco como centro de sua vida. O álbum Riding with the King, de 2000, com Eric Clapton, apresentou sua autoridade a outro grande público e recebeu amplo reconhecimento.

King entrou para o Blues Hall of Fame em 1984 e para o Rock and Roll Hall of Fame em 1987. Recebeu numerosos Grammys, além de distinções pela contribuição cultural de uma carreira que aproximou tradição e modernidade. Sua generosidade no palco, a disciplina profissional e o respeito pela canção tornaram-se parte inseparável de sua imagem.

Últimos anos e legado

B.B. King morreu em 14 de maio de 2015, em Las Vegas, aos 89 anos. Sua importância ultrapassa a soma de discos e prêmios. Ele mostrou que o blues podia conservar suas raízes e, ao mesmo tempo, ocupar salas de concerto, televisões, arenas e festivais internacionais sem perder intimidade.

Entre “Every Day I Have the Blues”, “Sweet Little Angel”, “The Thrill Is Gone”, “Lucille” e “Riding with the King”, permanece uma assinatura impossível de confundir. Seu mel de ouro é profundo, elegante, generoso e azul — o som de uma voz que confessa e de uma guitarra que responde com a verdade de uma única nota.

Por Fabiano Holanda Cavalcante · 2 de outubro de 2026

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