23 - DEAN MARTIN
— A ELEGÂNCIA QUE FAZIA TUDO PARECER FÁCIL
Voz de veludo, humor sem esforço, balanço de bar e a arte de transformar
standards, canções italianas e country pop em conversa íntima.
Olá, eu sou Fabiano Holanda Cavalcante. Não sou
produtor musical de verdade, estou apenas fingindo ser um neste projeto. O
objetivo é criar uma coleção fantástica, reunindo o puro mel de ouro de cada
artista. Organizo tudo como um LP simples com 14 faixas (7 no Lado A e 7 no
Lado B). A ideia é entregar o melhor do melhor para abrir a porta para quem
quiser mergulhar na obra completa.
O CONCEITO
Um retrato de Dean Martin, o cantor e ator
que fez da naturalidade uma assinatura. O Lado A reúne o charme
ítalo-americano, as grandes declarações românticas, o swing cinematográfico e a
suavidade com que ele atravessou do pop tradicional ao country. O Lado B entra
em capelas ao luar, bares de estrada, cidades distantes, saudade e inverno. Em
toda parte, a voz parece chegar sem esforço — mas por trás da descontração
existe um intérprete preciso, capaz de dizer uma frase como se ela tivesse
acabado de nascer.
LADO A —
CHARME, SWING E O ROMANCE COMO ESPETÁCULO
1. That’s Amore
Compositores: Harry Warren e Jack Brooks
Apresentada por Dean Martin no filme The Caddy,
de 1953, tornou-se sua grande fantasia ítalo-americana. Mandolim, imagens
gastronômicas e um refrão imediatamente reconhecível constroem uma Nápoles de
cinema, calorosa e bem-humorada.
2. Memories Are Made of This
Compositores: Terry Gilkyson, Richard Dehr e Frank
Miller
Gravada em 1955 com o trio The Easy Riders, transforma
a vida doméstica em receita afetiva: beijos, sonhos, filhos e lembranças
misturados com simplicidade. A base acústica deixa a voz à frente, íntima e
segura. O enorme sucesso mostrou que Martin não dependia apenas do cinema ou da
comédia; podia sustentar sozinho uma narrativa sentimental e levá-la ao topo
das paradas.
3. Everybody Loves Somebody
Compositores: Irving Taylor, Ken Lane e Sam Coslow
Em 1964, uma antiga canção encontrou a voz definitiva.
A gravação de Dean cresce da confidência para o abraço orquestral, afirmando
que o amor chega a todos em algum momento. O compacto alcançou o primeiro lugar
nos Estados Unidos e virou tema de seu programa de televisão. Em plena era dos
Beatles, o crooner recuperava o centro da cultura popular sem tentar parecer
outra pessoa.
4. Volare (Nel blu dipinto di blu)
Compositores: Domenico Modugno e Franco Migliacci
Dean gravou em 1958 uma resposta ítalo-americana ao
fenômeno mundial de Domenico Modugno. Alternando inglês e italiano, troca parte
do teatro expansivo do original por balanço relaxado e elegância de salão. A
melodia continua voando, mas agora parece atravessar um clube noturno. A versão
reafirma sua ligação com a herança familiar sem abandonar o idioma pop
americano.
5. Ain’t That a Kick in the Head
Compositores: Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn
Escrita para Ocean’s 11 e gravada em 1960 com
arranjo de Nelson Riddle, converte o amor em golpe feliz. Metais, bateria e
fraseado caminham com precisão de cassino, enquanto Dean mantém a sensação de
improviso.
6. You’re Nobody till Somebody
Loves You
Compositores: Russ Morgan, Larry Stock e James
Cavanaugh
Dean registrou a canção primeiro em 1960 e voltou a
ela numa leitura mais direta em 1964. A ideia pode soar absoluta, mas sua
interpretação evita sermão: oferece solidariedade aos solitários e confiança de
que o afeto ainda virá. O fraseado balanço transforma conselho em conversa de
madrugada, unindo melancolia e esperança na mesma respiração.
7. Gentle on My Mind
Compositor: John Hartford
No fim dos anos 1960, Martin encontrou no country
contemporâneo uma extensão natural de sua voz. Em “Gentle on My Mind”, a
liberdade da estrada convive com a lembrança tranquila de alguém que permanece
sem exigir posse. Dean simplifica as curvas verbais e deixa a melodia correr
com leveza. O Lado A termina em movimento, com ternura sem amarras.
Depois de um Lado A guiado pelo romance, pelo swing e
pela afirmação de uma estrela solo, o Lado B acompanha Dean Martin por capelas,
bares, estradas e quartos de inverno. O repertório se aproxima ainda mais do
country pop, mas preserva a serenidade do crooner que fazia saudade, humor e
abandono caberem na mesma taça.
LADO B —
LUA, ESTRADA E SAUDADE SEM PRESSA
1. In the Chapel in the Moonlight
Compositor: Billy Hill
Neste standard dos anos 1930, recuperado por Dean na
fase Reprise, romance e devoção se encontram sob luz noturna. A promessa de
casamento surge sem grandiloquência: coro, cordas e voz desenham uma cena
antiga com acabamento moderno. Ele canta como quem já conhece o desfecho e,
justamente por isso, pode saborear cada detalhe do caminho até o altar. A
interpretação transforma a capela sonhada num refúgio de serenidade e
compromisso.
2. Little Ole Wine Drinker, Me
Compositores: Hank Mills e Dick Jennings
Lançada por Dean em 1967, veste uma desilusão amorosa
com humor resignado e sabor country. O narrador procura no vinho uma pausa para
a dor, mas a voz nunca perde o controle. A canção dialoga com a persona pública
do copo na mão, embora o intérprete revele algo mais delicado: por trás da
piada, existe um homem tentando atravessar a ausência. O contraste entre leveza
e solidão dá à gravação uma humanidade que ultrapassa a brincadeira.
3. Houston
Compositor: Lee Hazlewood
Com passo marcado e arranjo de estrada, “Houston”
acompanha um viajante cansado em direção a um lugar que promete abrigo. Dean
abraça o sotaque country sem forçá-lo, preferindo a clareza narrativa. A cidade
funciona como destino concreto e esperança emocional: depois de perdas, frio e
distância, talvez exista uma porta aberta no fim do caminho.
4. The Door Is Still Open to My
Heart
Compositor: Chuck Willis
Em 1964, Martin levou ao pop orquestral uma canção
nascida no rhythm and blues. A porta do título permanece aberta como imagem de
perdão e espera. Coro e orquestra ampliam a declaração, mas Dean conserva a
intimidade, evitando dramatizar demais. Sua força está na paciência: ele não
implora, apenas deixa claro que o retorno ainda é possível.
5. I Will
Compositor: Dick Glasser
Uma promessa curta e firme recebe interpretação sem
excesso. A melodia ascendente e o coro sustentam a certeza amorosa, enquanto
Dean articula cada compromisso como se estivesse falando diretamente a uma
única pessoa. A economia é essencial: poucas palavras, duração compacta e uma
voz que transmite permanência sem precisar levantar o tom.
6. Let It Snow! Let It Snow! Let
It Snow!
Compositores: Jule Styne e Sammy Cahn
Gravada para A Winter Romance, de 1959,
tornou-se uma das leituras definitivas do standard. A letra não menciona o
Natal: celebra o abrigo amoroso enquanto a neve fecha o mundo lá fora. Dean
encontra o andamento perfeito entre aconchego e swing, cantando como anfitrião
de uma sala aquecida. Décadas depois, a gravação voltou às paradas e renovou
sua presença sazonal.
7. Send Me the Pillow You Dream
On
Compositor: Hank Locklin
Este clássico country pede um objeto impossível: o
travesseiro que guarda os sonhos da pessoa distante. Na gravação de 1965, Dean
contém a tristeza e deixa que a imagem faça o trabalho. O arranjo Nashville-pop
aproxima saudade rural e elegância urbana. O LP termina em suspensão, com a voz
tentando encurtar a distância por meio do sonho compartilhado.
Depois da escuta, o retrato:
a história de um filho de imigrantes italianos de Ohio que passou pelos
ringues, pelos clubes, por Hollywood, Las Vegas e a televisão até transformar
descontração em uma das formas mais reconhecíveis da elegância popular americana.
PERFIL DO
ARTISTA — DEAN MARTIN
Steubenville, família italiana e os primeiros palcos
Dino Paul Crocetti nasceu em 7 de junho de 1917, em Steubenville,
Ohio, numa família de origem italiana. Cresceu ouvindo italiano em casa e
só aprendeu inglês na infância. Antes de viver da música, trabalhou em
siderúrgica, circulou por cassinos e tentou a vida como boxeador. Essas
experiências ajudaram a formar a postura calma de quem parecia conhecer tanto o
salão elegante quanto os bastidores menos luminosos.
Como cantor, apresentou-se em clubes e adotou primeiro
o nome Dino Martini, depois Dean Martin. Trabalhou com a banda de Sammy Watkins
e foi aperfeiçoando um fraseado inspirado pelos grandes crooners, mas menos
solene. Desde cedo, sua marca estava na proximidade: em vez de impor a canção,
parecia dividi-la com a mesa mais próxima.
Martin e Lewis: o caos encontra a calma
Em 1946, conheceu Jerry Lewis e formou com ele uma das
duplas mais populares do entretenimento americano. O contraste era perfeito:
Lewis explodia em gestos, vozes e desordem; Martin permanecia elegante, cantava
e fingia observar o caos de fora. Clubes, rádio, televisão e cinema ampliaram
rapidamente a fama dos dois.
Entre My Friend Irma, de 1949, e Hollywood
or Bust, de 1956, fizeram 16 filmes juntos. A parceria terminou em 1956, e
muitos duvidaram que Martin pudesse se sustentar sozinho. A dúvida ignorava o
principal: por trás do homem que parecia apenas reagir às loucuras de Lewis
havia um cantor disciplinado, um ator atento e um comediante de tempo preciso.
A voz solo: Capitol, cinema e standards
A carreira fonográfica já tinha conquistado marcos com
“That’s Amore” e “Memories Are Made of This”. Na Capitol, Dean trabalhou com
arranjadores como Nelson Riddle e encontrou um equilíbrio entre balada, swing e
humor. Sua técnica se escondia sob a naturalidade: entradas ligeiramente
atrasadas, dicção clara, mudanças discretas de dinâmica e uma capacidade rara
de fazer o repertório soar conversado.
Como ator, provou alcance dramático em The Young
Lions e Some Came Running, ambos de 1958, e deixou uma atuação
memorável em Rio Bravo, de 1959. A partir daí, cinema e música passaram
a reforçar a mesma imagem: um homem que podia ser vulnerável sem perder a
compostura e engraçado sem destruir a canção.
Rat Pack, Las Vegas e a fabricação do cool
Ao lado de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e outros
companheiros, Martin tornou-se figura central do grupo conhecido como Rat Pack.
Nos palcos de Las Vegas e em filmes como Ocean’s 11, de 1960, música,
piadas internas e camaradagem se misturavam. Dean ocupava o espaço com aparente
indiferença, como se o espetáculo acontecesse por acaso ao redor dele.
A imagem do copo, do smoking e da leve embriaguez
fazia parte de um personagem cômico cuidadosamente controlado. O segredo não
era a displicência, mas o domínio: Martin sabia exatamente quando atrasar uma
frase, interromper uma música ou olhar para a câmera. Sua versão do “cool” não
dependia de distância emocional; era calor sem ansiedade.
Reprise, country pop e o retorno ao topo
Nos anos 1960, já ligado à Reprise, Dean aproximou-se
do country e do easy listening sem abandonar o repertório romântico. “Everybody
Loves Somebody” chegou ao primeiro lugar em 1964 e abriu uma nova fase de
sucesso. Vieram “The Door Is Still Open to My Heart”, “You’re
Nobody till Somebody Loves You”, “Houston” e “Send Me the Pillow You Dream On”.
Essa guinada não foi simples adaptação comercial. O
country narrativo combinava com sua maneira direta de cantar e com personagens
de estrada, perda e espera. Enquanto o rock dominava a juventude, Martin
provava que a voz adulta ainda podia ocupar o centro das paradas mantendo
identidade própria.
Televisão, roasts e intimidade com a câmera
Em 1965, estreou The Dean Martin Show, série de
variedades que consolidou sua presença semanal na televisão. Cantava, recebia
convidados e fazia humor com a mesma impressão de improviso controlado. O
programa permaneceu no ar até 1974 e deu origem aos populares Celebrity
Roasts, nos quais a zombaria afetuosa se tornava espetáculo.
A câmera favorecia sua economia. Um olhar lateral, uma
palavra murmurada ou um erro fingido bastavam para criar cumplicidade. Martin
parecia convidar o público a participar do segredo de que todo espetáculo é uma
encenação — e, ao mesmo tempo, fazia essa encenação parecer uma sala cheia de
amigos.
Últimos anos, morte e permanência
Dean Martin reduziu gradualmente o ritmo de trabalho
nas décadas finais. A morte de seu filho Dean Paul, em 1987, marcou
profundamente seus últimos anos. Ainda voltou aos palcos, inclusive numa turnê
com Sinatra e Sammy Davis Jr., mas tornou-se cada vez mais reservado.
Morreu em 25 de dezembro de 1995, aos 78
anos, em Beverly Hills, Califórnia. Deixou gravações, filmes e programas
que continuam a definir uma ideia de elegância popular: sofisticada sem
rigidez, sentimental sem ansiedade, engraçada sem esforço aparente.
Entre “That’s Amore”, “Memories Are Made of This”,
“Everybody Loves Somebody”, “Ain’t That a Kick in the Head” e “Little Ole Wine
Drinker, Me”, permanece um intérprete que transformou relaxamento em estilo e
precisão em naturalidade. Seu mel de ouro é macio, noturno, bem-humorado e
acolhedor — o som de alguém que entrava numa canção como quem chega à mesa e
puxa uma cadeira.
Por
Fabiano Holanda Cavalcante · 23 de outubro de 2026


